A cerca e o relacionamento

RELACIONAMENTOS

10/1/20251 min read

Na vida psíquica, construímos “cercas” para sustentar os vínculos. Elas aparecem quando dizemos ao outro, de forma insistente, como deve agir: “se eu sou leal, ele também precisa ser”, “se eu me esforço, ela também deve se esforçar”. A cerca, então, se transforma em uma tentativa de controlar o desejo e o comportamento do outro, como se a presença da vigilância fosse suficiente para manter o relacionamento coeso.

Mas na psicanálise aprendemos que a repetição exaustiva de cobranças não garante transformação. Ao contrário, denuncia a angústia de tentar moldar o outro à nossa imagem, esquecendo que cada sujeito é atravessado por sua própria história, falta e desejo. O risco é viver em um pasto cercado, onde o vínculo se sustenta mais pelo medo da perda do que pela escolha genuína de permanecer.

A ausência de cerca, por sua vez, nos coloca diante do mais difícil: permitir que o outro se revele sem nossas marcações. É um convite ao livre-arbítrio do parceiro, à autonomia de decidir o que oferece à relação, sem que seja preciso vigiar, pontuar ou controlar. É nesse espaço que podemos ver o que sustenta de fato o laço: se é a liberdade ou a prisão.

Relacionar-se, portanto, não é segurar a cerca para impedir a saída, mas confiar que a permanência só tem sentido quando é escolha.

“A liberdade é, em sua essência, a possibilidade de ser diferente.” — Kierkegaard

✨ Que tal refletir sobre as suas próprias cercas? O que você tem segurado por medo de perder? E se fosse possível escolher relacionar-se sem cercas, o que mudaria em sua vida?
A psicoterapia pode ser o espaço para atravessar essas questões e ressignificar os seus vínculos.