A coragem de continuar Amando
AOS MEUS PACIENTES
12/30/20253 min read


Vivemos em tempos de heróis.
Heróis de capa, de armaduras tecnológicas, de universos paralelos. Vivemos em tempos em que a Marvel vende sonhos embalados em força, velocidade, inteligência artificial e finais felizes cuidadosamente calculados. E talvez por isso mesmo, a gente tenha se esquecido do maior de todos os superpoderes: o amor.
O amor não faz barulho.
Não explode cidades, não dobra o tempo, não atravessa paredes.
Mas atravessa pessoas. E isso muda tudo.
Quando falamos do Superpoder do Amor, muita gente estranha. Amor, para alguns, ainda é visto como fraqueza, excesso, dependência. Mas quem já viveu de verdade sabe: amar exige uma força que nenhum herói de cinema ensina. Exige resistência. Exige insistência. Exige atravessar o tempo sem garantias de final feliz.
Eu penso muito no amor quando observo histórias reais, daquelas que não viralizam por perfeição, mas por resistência. Pessoas que seguem vivendo mesmo quando o corpo adoece, quando o futuro encurta, quando os planos precisam ser reinventados. Há mulheres que, mesmo diante de diagnósticos graves, escolhem amar, casar, gerar vida, permanecer presentes enquanto podem. Há casais que seguem juntos quando a doença chega, quando a mobilidade muda, quando a rotina exige cuidado constante.
O amor, nesses casos, não é promessa. É decisão diária.
É impossível não lembrar do filme Diário de uma Paixão, onde o amor atravessa o tempo, as diferenças e, mais tarde, a própria memória. Mesmo quando ela já não o reconhece, ele continua indo. Continua contando a história. Continua ficando. Amar, ali, não é ser lembrado — é permanecer, mesmo quando o outro esquece.
O tempo faz isso com a gente.
O tempo não preserva nada intacto. Ele transforma.
Vemos mães que recebem diagnósticos que parecem sentenças, ouvindo que seus filhos terão poucos anos de vida e, ainda assim, o amor estende o tempo. Não como milagre romântico, mas como cuidado, presença, vínculo, sentido.
Vemos casais que começaram com saúde e promessas, e que depois precisaram reinventar tudo diante de uma deficiência, de uma doença autoimune, de um corpo que já não responde como antes. E permanecem. Não porque é fácil, mas porque é amor.
O amor não impede a dor.
Mas dá significado a ela.
Quem carrega o Superpoder do amor aprende que julgamento perde importância. O olhar do outro encolhe diante daquilo que se vê e se sente por dentro. Amar é escolher mesmo quando não há aplausos. É ficar quando o mundo sugere ir embora. É sustentar quando tudo pede desistência.
E talvez seja por isso que o amor seja tão revolucionário.
Porque ele não promete conforto, promete profundidade.
No fim do ano, somos convidados a fazer balanços. Contar perdas, ganhos, erros, acertos. Mas eu te proponho outro tipo de pergunta, mais silenciosa e mais potente:
Onde o amor te levou que você nunca imaginou ir?
Foi um romance que não deu certo, mas te ensinou sobre limites?
Foi um filho que você não planejou, mas transformou sua vida?
Foi uma doença, uma ausência, uma despedida que revelou uma força que você não sabia que tinha?
Quem tem o superpoder do amor não controla o futuro, mas atravessa o presente com mais sentido. E isso não termina no fim do ano. Isso cresce. Se expande. Aumenta.
Porque o amor, quando usado, não se gasta.
Ele se estende.
E talvez, no meio de tantos heróis, tecnologias e promessas de eficiência, o maior ato de coragem seja esse:
continuar amando.
Esse é o verdadeiro superpoder.
Nota: Para quem me ensinou, sem saber, sobre a coragem de continuar amando. <3
