A infância que ainda vive em nós

AOS MEUS PACIENTES

10/12/20251 min read

“Ouvir sua criança é lembrar quem você era antes do mundo dizer quem você deveria ser.” Mafoane Odara

Quando éramos crianças, o tempo não tinha dono.
As horas passavam depressa demais porque estavam cheias de presença de brincar, de correr, de imaginar. Era um tempo vivo, feito de curiosidade e de entrega.

A psicanalista Maria Rita Kehl, em O tempo e o cão, reflete sobre o quanto o sujeito contemporâneo perdeu essa relação viva com o tempo. Ela diz que vivemos um tempo que se mede pelo que produzimos, não pelo que vivemos. Um tempo que exige resultados, e não sentidos.
Enquanto na infância o tempo corria porque a vida pulsava, na vida adulta o tempo pesa porque nos tornamos prisioneiros dele.

Na infância, a roupa vinha suja de terra, o corpo cansado e o coração leve.
Hoje, tudo parece precisar estar limpo, passado, no lugar. O corpo se cansa, mas o coração, esse não descansa.
Trocamos as marcas da brincadeira pelas marcas da exaustão.

E ainda assim, a criança não morre.
Ela vive em cada vez que a gente ri até a barriga doer, em cada instante em que o tempo parece parar, em cada coisa pequena que ainda nos encanta.
Ela vive quando criamos, quando nos emocionamos, quando ousamos desejar algo que não cabe nas planilhas.

Talvez o convite do Dia das Crianças seja esse: lembrar-se da liberdade que um dia tivemos e perceber que ela ainda existe em algum lugar dentro de nós.
Que o tempo pode voltar a ser vivo, que a vida pode voltar a ter cor.

Feliz Dia das Crianças.
E que você se permita, ao menos por um instante, ouvir a sua. 💛