Burnout: quando o excesso se disfarça de Dedicação
TRABALHO E SAÚDE MENTAL
10/3/22 min read


Existe um mito bastante difundido: o de que só desenvolve burnout quem não gosta do trabalho. A realidade, porém, mostra o contrário. Muitos dos que mais sofrem com esse esgotamento são justamente aqueles que amam o que fazem.
Afinal, como alguém que não gosta do seu trabalho ultrapassaria tanto os limites? O excesso, quase sempre, nasce da paixão, da entrega e da necessidade de provar valor. É como se houvesse uma cobrança silenciosa para mostrar, o tempo todo, que somos capazes de produzir mais mesmo quando isso significa ultrapassar os próprios limites físicos e emocionais.
E os números mostram o tamanho do problema. De 2014 a 2024, os afastamentos relacionados ao burnout cresceram mais de 1.000%. Não estamos falando de algo pontual, mas de uma verdadeira epidemia do cansaço, como descreve Byung-Chul Han em seu livro A Sociedade do Cansaço. Vivemos em um tempo onde a produtividade é romantizada e o descanso é visto quase como culpa.
Mas o corpo não sustenta indefinidamente o peso desse ritmo. O cansaço extremo mina a concentração, reduz a criatividade e, paradoxalmente, diminui a própria produtividade. O esgotamento mental não aparece de um dia para o outro; ele é silencioso, cumulativo e, muitas vezes, só é percebido quando já se transformou em Burnout.
O trabalho tem, sim, um lugar central na vida humana. Como lembrava Aristóteles, a realização está no ato de exercer nossas potencialidades. Trabalhar nos conecta ao mundo, nos dá propósito e sentido. Mas quando o trabalho deixa de ser ponte e passa a ser prisão, é preciso repensar: quanto vale se dedicar tanto e perder momentos que jamais voltam? Quanto vale trabalhar sem ver o filho crescer? Quanto vale produzir e, no meio do caminho, adoecer?
O desafio está em encontrar equilíbrio. Reconhecer sinais de exaustão, respeitar pausas, impor limites. Afinal, não existe qualidade de vida sem saúde mental. E o preço de ignorar isso pode ser alto demais.
Reflita: como você tem se relacionado com o seu trabalho? O quanto desse esforço é saudável, e o quanto já se tornou excesso? A psicoterapia pode ser um espaço para redescobrir a medida certa entre produtividade e bem-estar.
