Começar de novo: entre o medo, o risco e a possibilidade de amar
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1/8/20262 min read


Vivemos tempos em que amar parece ter se tornado um ato de coragem. Em um mundo marcado por relações frágeis, descartáveis e cada vez mais rápidas, recomeçar um vínculo afetivo não é simples é, muitas vezes, assustador. O medo não nasce do nada. Ele nasce de experiências anteriores, de traumas acumulados, de tentativas frustradas e de vínculos que prometeram permanência, mas entregaram ausência.
Zygmunt Bauman nos ajuda a compreender esse cenário ao falar sobre os relacionamentos líquidos: laços que não se sustentam no tempo, que se desfazem diante do primeiro desconforto, que evitam profundidade para não gerar responsabilidade. Nesse contexto, confiar virou risco, entregar-se virou ameaça, e permanecer virou quase um ato de resistência.
Isso atravessa todos os tipos de relacionamento heteronormativos, homoafetivos, longos, breves, intensos ou silenciosos. Há uma sensação coletiva de desesperança: como acreditar de novo se tantas histórias terminaram mal? Como investir quando tanto tempo já foi gasto tentando fazer dar certo? Como se permitir sentir se o custo emocional parece alto demais?
É por isso que tantas pessoas hoje desejam amar, mas têm medo de começar.
Ainda assim, há algo que insiste. Um desejo que não se cala completamente. Uma vontade de acreditar que nem tudo está condenado ao fracasso. Porque, apesar das experiências ruins, seguimos sendo pessoas que cuidam, que sentem, que se responsabilizam emocionalmente. E se somos capazes disso, por que não mereceríamos encontrar alguém que também seja?
Arriscar continua sendo assustador. E sempre será. A vida, afinal, não oferece garantias. Mas como já dizia William Shakespeare, “nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos ganhar pelo simples medo de tentar”. Não tentar, por autoproteção, às vezes também nos rouba possibilidades.
Começar de novo não é negar o que doeu. É reconhecer que o medo existe e ainda assim escolher não viver paralisado por ele. É entender que nem toda nova história repete a anterior, embora nossas feridas tentem nos convencer disso. Cada encontro é único, mesmo quando carrega ecos do passado.
Há também um movimento importante que precisa ser resgatado: o de esperançar. Não como espera passiva, ingênua ou idealizada, mas como ação. Esperançar é se colocar disponível, com mais consciência, mais limites e mais cuidado consigo. É não romantizar o sofrimento, mas também não fechar completamente as portas por medo de sentir de novo.
Talvez amar nunca deixe de ser um risco. Mas também pode ser sorte. Sorte de encontrar alguém que fique. Que sustente. Que cuide. Que não jogue fora quando exige trabalho. Sorte de viver algo que não anule, não confunda, não diminua.
A felicidade não é promessa é possibilidade.
E ela só existe para quem, apesar do medo, ainda se permite começar.
