Dedo Podre ou Olhar Viciado?

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10/7/20252 min read

Quantas vezes você já ouviu  ou disse  eu tenho dedo podre para escolher”?
É uma frase que vem acompanhada de riso, ironia ou resignação.
Mas, no fundo, ela carrega uma dor silenciosa: a de quem repete padrões, se decepciona e, ainda assim, acredita que o problema está sempre no outro.

Na adolescência, dizíamos que era o coração que escolhia.
Hoje, adultos, preferimos culpar o destino, o acaso, o azar — ou o tal “dedo podre”.
Mas a verdade é que, depois de certa idade, quando já temos maturidade emocional e cognitiva suficientes, não é mais o destino que escolhe por nós — somos nós que escolhemos o destino.

A psicanálise fala sobre o princípio da repetição.
Repetimos, sem perceber, aquilo que não foi resolvido.
Nos atraímos por dinâmicas familiares, por afetos conhecidos, por histórias que, mesmo dolorosas, nos soam familiares.
Porque o inconsciente não busca o prazer, ele busca o reconhecimento.
É como se dissesse: “essa dor eu já conheço, então me sinto em casa.

Por isso, quando alguém diz que tem “dedo podre”, na verdade está falando de um inconsciente insistente, que tenta simbolizar o que ainda está preso no passado.
Não é azar, é padrão.
Não é destino, é repetição.

O sociólogo Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, já alertava que vivemos em tempos onde as relações são fluidas, descartáveis, e o vínculo se tornou frágil.
Queremos amar, mas temos medo de nos entregar.
Desejamos o outro, mas não suportamos o espelho que ele se torna.
E, assim, trocamos de pessoas, mas não mudamos de comportamento.
Mudamos o CPF,  mas o roteiro é o mesmo.

A psicologia nos convida a olhar para isso com mais responsabilidade.
O problema não é o dedo, é o olhar.
É o modo como você tem se percebido e permitido se relacionar.
Quando você entende o que te leva a escolher quem não te escolhe, começa o verdadeiro processo de autoconhecimento.
E é nele que o ciclo se quebra.

Porque não existe dedo podre quando existe consciência.
Existe escolha.
E, a partir dela, a possibilidade de se libertar do que se repete.

🌿 Se você tem se visto preso em ciclos afetivos parecidos, talvez não seja sobre azar, mas sobre autoconhecimento.
A psicoterapia é o espaço seguro para compreender as suas repetições, elaborar o que dói e aprender novas formas de se relacionar.
Você não precisa repetir o que te feriu, pode escolher, a partir de agora, o que te cura.