Gaslighting: a violência que não deixa marcas, mas deixa dúvidas
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3/25/20266 min read


Nem toda violência deixa marcas no corpo.
Algumas deixam marcas na mente.
Outras deixam marcas na forma como a pessoa passa a se enxergar.
Mas existe um tipo de violência que deixa algo ainda mais profundo:
ela deixa dúvidas.
Dúvidas sobre o que você viu.
Dúvidas sobre o que você ouviu.
Dúvidas sobre o que você sentiu.
Dúvidas sobre quem você é.
Essa violência tem nome: gaslighting.
O termo vem de uma peça de teatro chamada Gas Light, em que um homem manipulava a própria esposa, diminuindo a intensidade das luzes da casa e dizendo que ela estava imaginando coisas, que estava confusa, que estava doente. Aos poucos, ele fazia com que ela duvidasse da própria percepção da realidade, para que ele pudesse controlá-la.
Gaslighting é exatamente isso:
uma forma de manipulação psicológica onde uma pessoa distorce a realidade, mente, nega fatos, inverte culpas e faz o outro duvidar da própria memória, da própria percepção e da própria sanidade.
E isso é violência psicológica.
A violência que começa com frases aparentemente simples
O gaslighting não começa com grandes mentiras.
Ele começa com pequenas distorções.
Começa com frases como:
“Você entendeu errado.”
“Você está exagerando.”
“Você é sensível demais.”
“Isso nunca aconteceu.”
“Eu nunca falei isso.”
“Você está inventando.”
“Você está ficando louca.”
“Você distorce tudo.”
“Ninguém vai acreditar em você.”
“O problema é que você pensa demais.”
“Você sempre arruma problema onde não tem.”
Aos poucos, a pessoa deixa de discutir sobre o que aconteceu e passa a discutir se aquilo aconteceu.
E isso muda tudo.
Porque quando a pessoa começa a duvidar da própria memória, ela começa a depender do outro para saber o que é verdade. E quando alguém passa a depender do outro para saber o que é verdade, ela começa a perder a própria autonomia emocional.
O que o gaslighting causa em uma pessoa?
Muitas pessoas que sofrem gaslighting chegam ao consultório dizendo:
“Eu acho que estou ficando louca.”
“Eu não confio mais na minha memória.”
“Eu não sei mais se estou certa ou errada.”
“Eu peço desculpa o tempo todo.”
“No final, a culpa sempre é minha.”
“Eu não consigo mais discutir, porque eu sempre saio como errada.”
“Eu estou sempre confusa.”
“Eu não sou mais a mesma pessoa depois dessa relação.”
Do ponto de vista psicológico, o gaslighting pode gerar:
Ansiedade;
Depressão;
Insegurança constante;
Confusão mental;
Dificuldade de tomar decisões;
Baixa autoestima;
Dependência emocional;
Isolamento social;
Sensação de estar “perdendo a si mesmo”
Ou seja, não é apenas uma briga de casal.
Não é apenas um problema de comunicação.
É uma forma de violência emocional e psicológica.
Por que alguém faz gaslighting?
Na psicanálise, entendemos que o ser humano tem dificuldade de lidar com a própria falha, com a culpa, com a frustração, com a ideia de não ser perfeito. Algumas pessoas, para não entrarem em contato com a própria responsabilidade, precisam colocar o erro no outro.
Então, ao invés de dizer:
“Eu errei.”
A pessoa diz:
“Você entendeu errado.”
Ao invés de dizer:
“Eu te machuquei.”
A pessoa diz:
“Você é sensível demais.”
Ao invés de dizer:
“Eu menti.”
A pessoa diz:
“Você está inventando coisas.”
Percebe?
A realidade é distorcida para que a pessoa não precise se responsabilizar por aquilo que faz.
O problema é que, para que uma pessoa continue se sentindo certa o tempo todo, alguém precisa ser colocado no lugar de errado o tempo todo.
E, nas relações, geralmente fica errado quem ama, quem tenta conversar, quem tenta resolver, quem tenta entender.
Existe uma frase que define muito o gaslighting
O gaslighting começa quando a pessoa para de discutir sobre o problema e começa a discutir sobre a sua percepção do problema.
Não é mais:
“Vamos falar sobre o que aconteceu.”
Passa a ser:
“Vamos falar sobre por que você entendeu isso errado, por que você é exagerada, por que você é louca, por que você está confundindo tudo.”
A discussão deixa de ser sobre o fato.
E passa a ser sobre a sua sanidade.
E isso é extremamente violento.
A consequência mais grave do gaslighting
O gaslighting não destrói apenas a relação. Ele destrói a confiança que a pessoa tem em si mesma.
E quando uma pessoa não confia mais em si:
Ela não confia na própria memória;
Ela não confia no próprio sentimento;
Ela não confia na própria percepção;
Ela não confia nas próprias decisões;
Ela passa a precisar do outro para validar a realidade.
E é nesse momento que a relação se torna um lugar de aprisionamento emocional. Porque quem controla a sua percepção da realidade, controla você.
Se você precisa ler isso, leia com atenção
Se alguém faz você:
Duvidar da sua memória;
Duvidar do que você sente;
Duvidar do que você viu ou ouviu;
Achar que está exagerando o tempo todo;
Pedir desculpa por tudo;
Sentir culpa constantemente;
Se sentir confusa;
Se sentir emocionalmente cansada;
Se sentir pequena;
Se sentir errada o tempo todo;
Se sentir “louca”;
Se afastar das pessoas;
Depender dessa pessoa para saber o que é verdade
Isso não é uma relação saudável.
Isso é manipulação psicológica.
E manipulação psicológica é violência, mesmo que não deixe marcas no corpo.
E talvez a parte mais importante desse texto seja essa:
Você não está louca.
Você não está exagerando.
Você não inventou o que você viveu.
Você não imaginou o que você sentiu.
Você não é “sensível demais” por se machucar com aquilo que machuca.
O que você sente é real.
O que você viveu é real.
E a sua dor é real.
Gaslighting é a violência que não deixa marcas, mas deixa dúvidas.
E viver cheio de dúvidas sobre si mesmo é uma das formas mais silenciosas de adoecer.
Ninguém enlouquece de repente.
Às vezes, a pessoa só passou tempo demais sendo convencida de que a sua realidade não era real.
E isso também é uma forma de violência.
Isso não é sobre uma peça de 1938. É sobre hoje.
O termo gaslighting não surgiu agora. Ele vem de uma peça de teatro chamada Gas Light, de 1938, que depois virou filme. Na história, um homem manipula a própria esposa de forma sutil e contínua, mexendo na intensidade das luzes da casa e dizendo que ela estava imaginando coisas. Aos poucos, ele a convence de que ela está confusa, de que está doente, de que não pode confiar na própria percepção. O objetivo não era apenas mentir. O objetivo era fazê-la duvidar de si mesma, para que, duvidando de si, ela passasse a depender dele para entender o que era real.
Estamos falando de uma história de 1938. E talvez isso seja o que mais assusta: essa forma de violência não é nova. O que é novo é que agora nós começamos a dar nome para coisas que muitas pessoas sempre viveram, mas não sabiam explicar.
A palavra gaslighting voltou a aparecer com muita força em 2022, logo após a pandemia, um período em que o mundo inteiro registrou aumento nas separações, nos conflitos familiares e, infelizmente, nos casos de violência doméstica. Quando olhamos para a realidade brasileira, existe um dado muito duro: a maioria dos casos de feminicídio acontece dentro de relações afetivas, e o agressor, na maioria das vezes, é o parceiro ou o ex-parceiro.
Quando falamos de gaslighting, não estamos falando apenas de uma palavra nova ou de um conceito da psicologia. Estamos falando de uma forma de violência psicológica que, muitas vezes, acontece antes de qualquer agressão física. Antes da violência que aparece, existe a violência que desorganiza a mente, que confunde, que faz a pessoa duvidar da própria percepção, que enfraquece a autoestima e que isola.
Muitas mulheres que viveram relações violentas relatam que, antes de qualquer agressão, já não sabiam mais se estavam certas, se estavam erradas, se estavam exagerando, se estavam imaginando coisas. Elas já estavam confusas, já estavam com medo, já estavam emocionalmente dependentes, já estavam afastadas de quem poderia ajudá-las. A violência psicológica quase sempre vem antes. E o gaslighting é uma das formas mais silenciosas dessa violência.
Entender isso não é sobre olhar para uma peça antiga ou para um filme. É sobre olhar para as relações de hoje e perceber que, às vezes, a violência não começa quando alguém agride. A violência começa quando alguém faz o outro perder a confiança em si mesmo.
E uma pessoa que perde a confiança em si mesma passa a não saber mais quando precisa ir embora.
