Homens que não pedem ajuda

AOS MEUS PACIENTES

10/27/20252 min read

Há um ponto em comum entre o silêncio, o orgulho e o ego: todos, em algum momento, servem como armaduras.
Nos homens, especialmente, essas armaduras são moldadas desde cedo pela cultura, pelas expectativas, pelo peso do que chamam de “ser forte”. Desde meninos, aprendem que chorar é fraqueza, que sentir é perda de tempo e que pedir ajuda é desistir. Mas o que a psicologia nos mostra é justamente o contrário: pedir ajuda é um ato de coragem.

Na clínica e na vida, o que se observa é que muitos homens só buscam auxílio quando a dor já atravessou o limite do suportável, quando o corpo adoece, quando o casamento acaba, quando o trabalho se torna insustentável ou quando a mente não dá mais conta de sustentar o personagem que a sociedade exigiu.

O psicanalista Donald Winnicott dizia que o verdadeiro amadurecimento emocional está em ser capaz de depender do outro e, paradoxalmente, é essa dependência saudável que nos torna adultos. No entanto, para muitos homens, depender continua sendo sinônimo de fraqueza. A resistência à terapia, à conversa, ao apoio, nasce justamente desse medo de não ser suficiente.

O ego masculino, alimentado por uma estrutura social machista, foi treinado para confundir vulnerabilidade com derrota. Mas vulnerabilidade não é sinônimo de fraqueza; é o reconhecimento de que somos humanos. E ser humano é, inevitavelmente, incompleto.

Em termos psicanalíticos, o ego tenta sustentar uma imagem de força e controle uma imagem que o sujeito acredita ser necessária para sobreviver no olhar do outro. Freud já dizia que o ego não é senhor em sua própria casa; e é justamente nessa casa desorganizada, cheia de cômodos trancados, que o homem moderno tenta morar sozinho, evitando abrir as portas que revelam suas dores, suas falhas e seus medos.

Entretanto, é nesse abrir-se que mora a possibilidade de cura.
Encerrar ciclos, permitir-se pausar, admitir que não se sabe tudo isso é também um gesto de amor-próprio. É compreender que a coragem não está em suportar tudo, mas em reconhecer o que não dá mais para suportar.

Muitos homens acreditam que, ao pedir ajuda, perdem o controle. Mas, na verdade, é ao negar o pedido que perdem a si mesmos. A vida não exige heróis. Exige presença, responsabilidade e humanidade.

Talvez o que mais adoeça o homem contemporâneo seja essa insistência em provar o tempo todo que dá conta, como se houvesse um prêmio em resistir.
Mas o verdadeiro prêmio está em saber parar, saber escutar, saber sentir.
E, sobretudo, em reconhecer que não há nada de errado em não saber tudo.

A psicoterapia pode ser esse espaço onde o masculino se reconcilia com a própria humanidade, onde o silêncio vira palavra, o peso vira sentido e o orgulho se transforma em aprendizado.

Porque ser homem também é poder dizer: “Eu não sei. Eu não aguento mais. Eu preciso de ajuda.”

E isso não o torna menos homem.
O torna, finalmente, inteiro.