Manipulados pela confiança: o golpe do falso Advogado e a saúde Mental sob pressão

AOS MEUS PACIENTES

10/21/20253 min read

Há algo curioso e ao mesmo tempo, preocupante nos relatos de quem cai em golpes. Muitas vezes, são pessoas instruídas, experientes, que em outras circunstâncias diriam com convicção: “eu nunca cairia nisso.” Mas a verdade é que ninguém está completamente imune quando o golpe é bem arquitetado, porque ele não age sobre a razão, e sim sobre a emoção.

O chamado golpe do falso advogado é um exemplo claro de manipulação emocional disfarçada de autoridade. Ele se constrói em cima de um princípio muito estudado pela psicologia social, conhecido como obediência à autoridade. O golpista adota uma postura segura, linguagem técnica e tom persuasivo, despertando na vítima algo que é humano: a tendência a obedecer e confiar em quem aparenta ter poder ou conhecimento.

O psicólogo Stanley Milgram, na década de 1960, estudou exatamente isso. Em seus experimentos sobre obediência, Milgram mostrou que, diante de uma figura de autoridade legítima, pessoas comuns são capazes de seguir ordens que contradizem seus próprios valores morais. Isso ocorre porque o cérebro passa a entender que a responsabilidade está na figura que detém o poder e não em quem executa a ação.

É mais ou menos o que acontece no golpe do falso advogado. A vítima credibiliza a figura de autoridade, confia no tom firme e racional de quem fala, e, tomada por medo, urgência ou culpa, entra num estado de submissão psicológica. Neuropsicologicamente, essa emoção intensa ativa a amígdala cerebral, que dispara respostas de alarme, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio crítico, fica momentaneamente inibido. A pessoa deixa de pensar e passa a reagir.

Se quisermos transformar isso em uma fórmula, ela poderia ser descrita assim:

Autoridade percebida + Submissão psicológica = Obediência automática → Ação impulsiva → Vítima do golpe.

Não se trata de ingenuidade, mas de uma engenharia emocional muito bem construída. O golpe acontece antes do pix, antes da transferência, antes de qualquer movimentação financeira, ele acontece no instante em que a emoção toma o lugar da razão.

Por isso, até pessoas lúcidas e preparadas podem se tornar vulneráveis. O gatilho não é a falta de conhecimento, e sim a força da emoção. O medo de perder um ente querido, a culpa de não agir a tempo, ou a urgência de “resolver logo” desativam o senso crítico e tornam a obediência automática.

Essa reflexão, trazida por Milgram há mais de meio século, segue atual. Seu trabalho ajudou a compreender por que tantas pessoas cedem à influência de autoridades, mesmo quando isso contraria seus princípios. E hoje, no contexto dos golpes digitais, esse fenômeno ganha uma nova roupagem, mas a raiz é a mesma: a emoção sobrepõe a razão.

Falar sobre isso é também um ato de prevenção. Compreender o comportamento humano sob pressão emocional é o primeiro passo para quebrar o ciclo de manipulação. Nenhum de nós está livre de sentir medo ou agir por impulso, mas o autoconhecimento nos ajuda a perceber quando estamos sendo conduzidos pela emoção, e não pela consciência.

O golpe não acontece quando o dinheiro é transferido. Ele acontece quando a confiança é sequestrada.

🎬 O filme “O Experimento de Milgram” (The Experimenter, 2015) retrata de forma brilhante essa dinâmica da obediência e nos convida a refletir sobre até onde podemos ir quando acreditamos que estamos apenas “seguindo ordens”.

📚 Referência:
Milgram, S. (1974). Obedience to Authority: An Experimental View. New York: Harper & Row.

Observação: Se esse texto te fez pensar sobre como as emoções podem influenciar nossas decisões, compartilhe com alguém. A informação é uma das maiores formas de proteção e a consciência, o primeiro passo para não ser manipulado.