Nem todo dezembro é festa

AOS MEUS PACIENTES

12/17/20253 min read

Dezembro costuma ser apresentado como um mês de celebrações, encontros, conquistas e alegria. As ruas se iluminam, as propagandas falam de felicidade, as redes sociais se enchem de retrospectivas felizes e promessas para o ano seguinte. Mas a verdade é que nem todo dezembro é festa e precisamos falar sobre isso.

Para muitas pessoas, dezembro não é sinônimo de comemoração, mas de balanço emocional. É o momento em que o ano termina e, junto com ele, surgem perguntas silenciosas: O que eu consegui? O que não deu certo? Quem ficou pelo caminho? Quem eu perdi? É um mês que convida — às vezes à força — a olhar para si.

Dezembro e a retrospectiva da existência

O fim do ano ativa um movimento quase inevitável de retrospectiva. Avaliamos planos que foram cumpridos, sonhos que ficaram pelo caminho, escolhas que doeram, relações que terminaram. Para quem viveu perdas, lutos, rupturas, adoecimentos emocionais ou simplesmente um ano difícil, dezembro pode ampliar a dor.

O filósofo Albert Camus dizia que “o hábito do desespero é pior do que o próprio desespero”. Em dezembro, muitas pessoas não estão desesperadas por um único fato, mas cansadas de um ano inteiro tentando resistir. O silêncio das noites, as datas comemorativas e a comparação constante com a felicidade alheia podem intensificar esse sentimento.

Viktor Frankl, ao falar sobre o sentido da vida, nos lembra que o sofrimento ganha ainda mais peso quando não encontra escuta, acolhimento ou significado. E dezembro, paradoxalmente, é um mês em que o sofrimento tende a ser menos autorizado socialmente.

A cobrança social para estar feliz

Existe uma exigência implícita e muitas vezes explícita, de que em dezembro todos deveriam estar bem. Feliz. Gratos. Rodeados de pessoas. Celebrando. O comércio, a cultura e até algumas tradições reforçam a ideia de que não há espaço para tristeza nessa época.

Mas como alguém pode celebrar quando carrega um luto recente?
Como participar de encontros quando a solidão está gritando por dentro?
Como sorrir quando o ano foi marcado por perdas, frustrações ou adoecimento emocional?

Essa cobrança social invalida dores legítimas e pode aprofundar o sofrimento de quem já está fragilizado. Nem todo mundo consegue — ou precisa — viver dezembro da mesma forma.

Luto, saudade e ausência

Dezembro também é um mês em que as ausências ficam mais visíveis. A cadeira vazia na ceia, o telefone que não toca mais, o abraço que não existe. A saudade ganha contorno, nome e data. E o luto, que não segue calendário, encontra nesse mês um terreno sensível.

Respeitar isso é um ato de humanidade. Não apressar processos, não exigir alegria, não minimizar a dor com frases prontas. O cuidado começa quando reconhecemos que cada pessoa vive dezembro a partir da sua própria história.

Presença que acolhe

Talvez o maior convite de dezembro não seja o de presentear, mas o de estar presente. Presente no sentido mais profundo: ouvir, acolher, perceber o outro. Você conhece alguém que está triste neste mês? Alguém que talvez não consiga celebrar, mas precisa ser visto?

Às vezes, acolher é oferecer silêncio.
Outras vezes, é abrir espaço em casa, no coração, na escuta.
É não perguntar “por que você está assim?”, mas dizer “estou aqui”.

Nem todo dezembro é festa, e tudo bem

Falar sobre isso não tira o brilho de quem celebra, mas devolve dignidade a quem sofre. Reconhecer que dezembro também pode ser um mês de dor, reflexão e cuidado é um gesto de prevenção, empatia e responsabilidade social.

Que possamos construir um dezembro mais humano.
Onde a alegria seja compartilhada, mas a tristeza também seja respeitada.
Onde a presença valha mais do que qualquer embrulho.

Nem todo dezembro é festa.
Mas todo dezembro pode ser um tempo de acolhimento.