O lugar onde eu aprendi a caber e precisei sair

AOS MEUS PACIENTES

2/5/20262 min read

Imagine um leão que passou toda a sua vida dentro de uma jaula.
Desde pequeno, aquele espaço foi apresentado como o único possível. Ali ele foi alimentado, protegido, observado. A jaula tinha regras, limites, horários. Tinha grades que o separavam do mundo e, com o tempo, ele passou a acreditar que aquelas grades também o definiam.

Na infância, foram os pais que moldaram o tamanho desse espaço.
Depois, a sociedade reforçou onde ele podia ir, como deveria se comportar, o que era esperado dele. Mais tarde, veio um relacionamento que, ainda que com afeto, também ajustou seus movimentos, suas vontades, seus silêncios.

O leão cresceu aprendendo a se adaptar.
Aprendeu a sobreviver ali dentro.

Mas o tempo passou.
Os pais já não estavam mais vivos.
O relacionamento já não existia.
E, pela primeira vez, não havia mais ninguém dizendo o que fazer.

É nesse momento que muitos pacientes chegam à clínica:
“E agora? A quem eu sigo? O que eu faço comigo?”

Durante muito tempo, repetir a própria história parecia suficiente.
Algo como aquela música tão conhecida da cultura popular, eternizada em Gabriela: “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim.”
Por anos, isso funcionou como explicação, defesa e até identidade.

Mas chega um tempo em que essa frase deixa de proteger e começa a aprisionar.

Na maturidade, algo se revela de forma quase assustadora:
a jaula ainda está ali…
mas a chave sempre esteve nas mãos do próprio leão.

E isso assusta.

Porque sair da jaula não é apenas liberdade é responsabilidade.
É escolher sem poder culpar.
É errar sem terceirizar.
É desejar sem pedir permissão.

A jaula é conhecida.
Ela tem o nosso tamanho.
Já sabemos onde não bater a cabeça, onde deitar, onde nos esconder.
O mundo lá fora, não. O mundo exige movimento, risco, perda e criação.

Na clínica, vemos com frequência como o medo mantém muitos leões paralisados.
Medo do novo.
Medo de não dar conta.
Medo de descobrir que talvez a vida pudesse ter sido diferente.

A psicanálise nos ajuda a entender que, em algum momento, as estruturas que nos constituíram precisam ser revisitadas. Sigmund Freud já apontava que crescer implica abandonar certas identificações primárias. Donald Winnicott falava sobre a passagem da dependência para a autonomia emocional, um processo necessário, mas nunca isento de angústia.

Sair da jaula dói porque nos confronta com o vazio do “quem sou eu sem as grades?”
Mas também é ali que nasce a possibilidade de viver com mais verdade.

Talvez a jaula tenha sido necessária.
Talvez tenha salvado.
Talvez tenha protegido.

Mas há um momento em que permanecer nela deixa de ser cuidado e passa a ser renúncia.

Viver exige atravessar o medo.
Exige abrir a porta.
Exige aceitar que liberdade não é ausência de sofrimento, mas presença de escolha.

E, às vezes, tudo o que a clínica faz é isso:
ajudar o leão a perceber que ele não nasceu para caber na jaula,
mesmo que tenha passado anos acreditando que aquele era o seu único lugar.