O peso da culpa: quando ela destrói e quando ela transforma

AOS MEUS PACIENTES

3/26/20262 min read

Existe um tipo de sofrimento que não vem apenas do que nos aconteceu, mas do que nós fizemos, das escolhas que tomamos e das pessoas que acabamos ferindo no caminho.

Esse sofrimento tem nome: culpa.

Mas a culpa nem sempre é igual. Existe uma culpa que adoece e existe uma culpa que transforma.

O psicanalista inglês Donald Winnicott falava sobre algo que ele chamou de capacidade de sentir culpa, e ele via isso não como um problema, mas como um sinal de maturidade emocional.

Para Winnicott, sentir culpa significa que a pessoa consegue perceber que suas atitudes afetam outras pessoas. Significa que ela consegue amar, se importar, se preocupar e, principalmente, reconhecer quando machuca alguém que ama.

A culpa saudável nasce quando a pessoa pensa:
“Eu errei.”
“Eu machuquei alguém.”
“Isso não combina com quem eu quero ser.”
“Eu preciso reparar.”

Percebe a diferença? A culpa saudável não é sobre se odiar.
É sobre se responsabilizar.

A culpa saudável não é sobre punição.
É sobre reparação.

A culpa saudável não diz: “eu sou uma pessoa horrível”.
A culpa saudável diz: “eu fiz algo que não foi bom, mas eu quero consertar”.

Esse tipo de culpa é uma culpa que constrói, porque ela leva a pessoa a crescer, a amadurecer, a rever escolhas, a tentar fazer diferente, a tentar reparar o dano que causou.

Mas existe outro tipo de culpa. Uma culpa que não constrói, só destrói.

É a culpa que vem acompanhada de autopunição, de vergonha excessiva, de sensação de que não há mais conserto, de que a pessoa precisa sofrer para pagar pelo que fez. Essa culpa não leva à reparação, leva apenas à dor, à angústia e, muitas vezes, à sensação de que nada mais faz sentido.

Essa culpa não transforma ninguém. Essa culpa apenas paralisa.

Talvez o mais difícil quando erramos não seja lidar com o erro em si, mas lidar com a culpa que vem depois. Porque a culpa pode seguir dois caminhos: ela pode virar punição ou ela pode virar responsabilidade.

Quando a culpa vira apenas punição, a pessoa fica presa ao erro.
Quando a culpa vira responsabilidade, a pessoa pode construir algo diferente a partir dele.

A culpa saudável pergunta:
“O que eu posso fazer agora, a partir do que aconteceu?”

A culpa destrutiva pergunta:
“Quanto eu preciso sofrer para pagar pelo que fiz?”

Percebe como são caminhos completamente diferentes?

Na culpa destrutiva, a pessoa se destrói.
Na culpa saudável, a pessoa se responsabiliza, repara, amadurece e, muitas vezes, se torna uma pessoa melhor do que era antes.

Talvez amadurecer seja exatamente isso: não é nunca errar, mas é o que fazemos depois que percebemos que erramos.

Porque existem erros que destroem pessoas.
Mas também existem erros que, quando elaborados, constroem consciência, responsabilidade, empatia e mudança.

A culpa, quando saudável, não é um lugar onde a pessoa deve morar.
É apenas um lugar por onde ela precisa passar para se tornar alguém melhor.