O peso dos atrasos

AOS MEUS PACIENTES

9/23/20251 min read

Há coisas que chegam tarde demais. Palavras, gestos, declarações. Elas até podem carregar beleza quando finalmente aparecem, mas sempre vêm acompanhadas de um peso: o atraso.

Na vida psíquica, o tempo é um enigma. Freud nos lembra que não há relógio que marque o inconsciente desejos permanecem latentes, recalcados, às vezes silenciados por anos, até que algo os faça emergir. Mas quando emergem fora do tempo do Outro, produzem um desencontro.

Porque amar também é tempo. É estar no compasso certo do encontro, é reconhecer que a vida não espera. E quando o dizer se atrasa, não é apenas a fala que se perde: é uma história inteira que poderia ter sido, mas não foi. O atraso cria um “quase”, um “se”, um “talvez” que habita o campo das ideias, mas não o da experiência vivida.

E então percebemos: estar atrasado, no amor, não é simplesmente chegar depois. É chegar num palco já desmontado, numa cena que já se encerrou, mesmo que o coração ainda guarde lembranças do espetáculo.

O atraso ensina, sim. Ele mostra que cada um tem seu tempo de aprendizagem, mas também nos lembra que o silêncio prolongado pode custar caro demais. Porque quando erramos o tempo, podemos perder não apenas o Outro, mas também um pedaço de nós que só existiria naquela relação.

Por isso, talvez a maior delicadeza que possamos cultivar seja viver o hoje com coragem dizer, expressar, se arriscar para não chegar tarde no coração de alguém. Porque alguns atrasos são irremediáveis, e o que fica é apenas a poesia melancólica do que poderia ter sido.

Se você sente que chegou atrasado em muitas histórias da sua vida, talvez seja hora de se escutar no presente. A psicoterapia pode te ajudar a reconhecer seus tempos e não perder os encontros que realmente importam.