O Super-Herói do Amor

AOS MEUS PACIENTES

12/30/20252 min read

Há pessoas que carregam no peito algo raro demais para este mundo.
Uma sensibilidade que não cabe em moldes, que não aprende a endurecer, que sente fundo, que percebe além. Pessoas assim não têm apenas sentimentos, têm superpoderes. E o maior deles é o Amor.

No nosso último encontro, não falamos de despedidas.
Falamos de jogos, de livros, de arte. Falamos de cultura, de criação, de tudo aquilo que fazia seus olhos acenderem. Havia ali um artista na música, na pintura, na forma de olhar o mundo. Alguém que expressava amor através do que criava, do que compartilhava, do que oferecia.

Falamos de amor.
Do amor pelas pessoas.
Do amor que se doa mais do que deveria.
Do amor que tenta continuar, mesmo quando o peso de existir parece grande demais.

Ter sensibilidade é um superpoder.
Só quem é profundamente sensível consegue ser empático.
Só quem sente muito consegue colocar a própria dor no bolso para acolher a do outro.
Só quem ama demais escolhe cuidar, ser prestativo, se doar nos vínculos, trabalhar com o que exige entrega, insistir quando já está cansado.

Mas viver com essa sensibilidade também dói.
Dói existir em um mundo que nem sempre sabe acolher quem sente tanto.

Pensar no suicídio é pensar em uma dor que não se mede.
É pensar em alguém que tentou por muito tempo.
E ele tentou. Tentou resistir por anos. Tentou continuar. Tentou amar. Tentou existir com tudo o que carregava.

Havia também uma mãe.
Uma mãe que tentava com os olhos atentos.
Com a garra.
Com os plantões.
Com a presença.
Com tudo o que tinha.
E ele reconhecia. Reconhecia cada cuidado, cada esforço, cada gesto de amor. Isso foi dito, sentido, nomeado.

Até o último momento, houve tentativa.
Tentativa com o Superpoder do Amor.

Mas o amor, quando é grande demais, às vezes fica por um fio.
E quando falamos de suicídio, falamos também de impulsividade, de um instante em que a dor atravessa antes que o cuidado consiga segurar.

Não é fácil existir com tanta dor.
E ainda assim, ele existiu por muito tempo.
Resistiu. Criou. Amou. Sentiu. Deixou marcas.

Que esse nosso super-herói do amor se encontre agora em outro lugar.
Um lugar onde a sensibilidade não machuca.
Onde o amor não pesa.
Onde existir não exige tanta força.

E que sorte foi daqueles que puderam sentir —
no olhar,
na voz,
na arte,
nas falas,
o amor grandioso que ele carregava.

Porque quem carrega esse superpoder não passa em vão.
Permanece.

Dedicatória: Para quem carregava mundos por dentro,
e me confiou um deles em silêncio.