Passividade no relacionamento: por que no amor, como no futebol, quem não joga perde
RELACIONAMENTOS
12/22/20253 min read


Em uma conversa com um amigo recente, surgiu um tema que aparece com frequência nos atendimentos: a passividade dentro dos relacionamentos. Não falamos aqui de gênero, mas de pessoas. De histórias que se constroem, ou se arrastam, a partir da ideia de que ceder sempre, silenciar conflitos e evitar posicionamentos seria uma forma de manter o vínculo.
Relacionamentos podem durar muito tempo mesmo quando adoecem. Em muitos casos, duram justamente porque uma das partes ocupa um lugar excessivamente passivo, enquanto a outra assume uma posição mais dominante. A crença que sustenta essa dinâmica é a de que, sendo passivo, virá o reconhecimento, a reciprocidade e o cuidado. Na prática, o que costuma acontecer é o surgimento do sofrimento psíquico.
A passividade, nesses contextos, não é sinônimo de maturidade ou amor. Muitas vezes, ela funciona como uma estratégia de sobrevivência emocional. A pessoa silencia o que sente, evita conflitos e se molda ao outro na tentativa de preservar o relacionamento. O preço disso, porém, costuma ser alto.
Para ilustrar essa dinâmica, gosto de recorrer a uma analogia simples: o futebol.
No futebol, um jogador passivo perde espaço. Ele não disputa a bola, não se posiciona, não reage. Com o tempo, leva gols, se machuca, não apresenta resultados e compromete não apenas o time, mas também a própria trajetória profissional. Não importa a posição em campo. Zagueiro, lateral, volante ou atacante. Todos precisam atacar quando necessário. Atacar, aqui, não significa agressividade, mas posicionamento, presença e participação ativa no jogo.
Nos relacionamentos acontece algo semelhante. Estar em uma relação não significa ocupar um lugar de submissão para evitar conflitos. Significa participar ativamente da própria história. Relações saudáveis são construídas em uma via de mão dupla, com diálogo, escuta, limites e posicionamento.
A psicanálise contribui de forma importante para essa compreensão. Donald Winnicott, psicanalista inglês, falava sobre o risco do desenvolvimento do chamado falso self. Esse conceito se refere a um modo de funcionamento em que a pessoa aprende a se adaptar excessivamente ao outro para manter o vínculo. Nesse processo, ela silencia desejos, necessidades e limites para não perder a relação.
Segundo Winnicott, relações sustentadas apenas por adaptação podem até durar, mas não são relações vivas. Não há saúde quando o sujeito precisa deixar de ser quem é para continuar pertencendo. Quando não existe espaço para o gesto espontâneo, para o posicionamento e para a expressão autêntica, o que se instala é o sofrimento psíquico.
É exatamente nesse ponto que muitos relacionamentos adoecem. A pessoa acredita que a passividade garantirá estabilidade, quando, na realidade, ela apenas posterga conflitos e acumula frustrações. Com o tempo, o silêncio vira sintoma. O corpo fala, o humor muda, a autoestima enfraquece e o relacionamento passa a ser um lugar de tensão, não de acolhimento.
Ser atacante da própria história não significa gritar, impor ou desrespeitar o outro. Significa reconhecer o próprio lugar na relação, expressar sentimentos, estabelecer limites e sustentar diálogos difíceis quando necessário. Relacionamento não é um jogo de sobrevivência, mas de cooperação. E cooperação exige que ambos estejam em campo, participando ativamente.
Não é a passividade que sustenta um relacionamento. O que sustenta é o posicionamento consciente, respeitoso e verdadeiro.
Porque quem não entra em campo acaba, inevitavelmente, perdendo o jogo.
E, muitas vezes, perde a si mesmo nesse processo.
Relacionamentos saudáveis não pedem silêncio.
Pedem voz.
Pedem presença.
Pedem coragem para jogar junto.
