Quando o amor ainda mora no passado
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10/11/20252 min read


Há uma entrega que não se desfaz no tempo. Mesmo quando o corpo já se ausentou, há um traço uma lembrança que insiste, um desejo que ainda vive, um sentimento que não encontra lugar no presente porque permanece preso ao que já foi.
É assim que, muitas vezes, não conseguimos seguir. Não por falta de oportunidade, mas por falta de espaço dentro de nós.
Quando um relacionamento termina sem que tenha sido uma escolha nossa, algo em nós continua ali, tentando ressignificar o fim. Criamos esperanças silenciosas: talvez um dia volte, talvez ainda haja algo a ser dito, talvez ninguém mais me conheça como aquela pessoa me conheceu. E nessa tentativa de manter viva uma história, a gente se esquece de viver novas.
Do ponto de vista psicanalítico, o amor que não se encerra é também uma forma de resistência à perda. O sujeito se ancora no passado para não ter que lidar com o vazio que o luto impõe. É como se amar aquele que partiu fosse mais suportável do que encarar a ausência e reconhecer que o outro não volta mais.
Freud dizia que, ao elaborar o luto, pouco a pouco desinvestimos libido do objeto perdido, ou seja, retiramos a energia psíquica depositada naquela pessoa para poder investir novamente em nós e no mundo. Mas nem todos conseguem fazer isso de forma natural. Alguns permanecem presos nesse circuito, reeditando memórias como forma de não enfrentar o desamparo.
O medo do novo, então, não nasce do outro. Ele nasce daquilo que ainda nos habita.
Porque, para se entregar de novo, é preciso estar minimamente disponível e quem ainda ama um passado está inteiro em outro lugar.
A entrega é um ato de coragem. E coragem não é ausência de medo, é o movimento de atravessá-lo.
Enquanto a gente não se despede do que já foi, o que poderia ser fica suspenso.
Como disse Shakespeare, “Nossas dúvidas são traidoras, porque nos fazem perder o que poderíamos ganhar, pelo simples medo de arriscar.”
E talvez o maior risco da vida seja continuar preso a um amor que já não existe enquanto a vida, paciente, continua a nos esperar no agora.
A psicanálise nos convida a olhar para esse “resto” aquilo que não se apaga com o tempo, o que continua insistindo em existir.
É nesse olhar que o sujeito pode reconhecer o que o prende e, pouco a pouco, soltar as correntes que o mantêm ligado a um amor que já não está.
Porque seguir em frente não é esquecer o passado, é permitir que ele encontre o seu lugar na história e que o presente possa, enfim, respirar.
