Quando o Filho Fala, Mas Quem Precisa Ser Ouvida é a Mãe

ADOLESCENTES

10/7/20252 min read

Em muitos atendimentos com adolescentes, é comum que quem procura ajuda seja a mãe.
É ela quem percebe que o filho está diferente, que a escola reclamou, que o rendimento caiu, ou que há um silêncio que não sabe decifrar.
Mas, em alguns casos, quando o processo terapêutico começa, o que se revela é que o sofrimento do adolescente é, também, o reflexo do sofrimento da mãe.

Não há como falar sobre a saúde emocional dos filhos sem olhar para a saúde emocional de quem cuida.
A mãe ocupa um lugar central no desenvolvimento psíquico do filho, não por perfeição, mas por presença.
Donald Winnicott, em seus estudos sobre o desenvolvimento emocional, descreve a importância da mãe suficientemente boa: aquela que é capaz de oferecer segurança, continência e afeto, mas também falha o bastante para permitir que a criança se torne autônoma.
Ou seja, não é sobre ser perfeita, é sobre ser possível.

Mas, quando a mãe adoece emocionalmente, seja por exaustão, sobrecarga, culpa ou dificuldade de se reconhecer em meio às próprias demandas, o olhar sobre o filho fica turvo.
Ela tende a interpretar o sofrimento do adolescente como desafio, desobediência ou drama.
E, sem perceber, invalida a dor dele.
Nas palavras de muitos adolescentes em terapia, “a minha mãe não me escuta”, “ela diz que é frescura”, “que tem gente pior”.
Essa invalidação cria uma ferida silenciosa: a de não se sentir legitimado.

Na clínica, o que se observa é que muitas vezes o sintoma do filho é o espelho do não dito da mãe.
Aquilo que não foi simbolizado, aquilo que foi calado por muito tempo, retorna por meio da angústia do filho.
Melanie Klein já apontava que as projeções e identificações fazem parte da constituição psíquica a criança absorve o que é do outro, especialmente o que é da mãe.
Por isso, quando essa mãe não encontra espaço para elaborar suas próprias dores, o filho pode acabar sendo o porta-voz inconsciente do que ela não conseguiu dizer.

A terapia do adolescente, por si só, não é suficiente se o contexto familiar permanece adoecido.
O psicólogo pode acolher, escutar e fortalecer aquele jovem uma vez por semana, mas o lar é diário.
E, se a casa é o lugar onde o sofrimento é repetido e não elaborado, o trabalho clínico se torna limitado.
É por isso que, muitas vezes, o processo de cura do filho começa quando a mãe aceita olhar para si.

Cuidar de si não é egoísmo, é responsabilidade.
A psicoterapia não é apenas um recurso para quem “não está bem”, mas um espaço de sustentação, de escuta e de elaboração, especialmente para quem carrega tantas funções.
Uma mãe em cuidado é uma mãe mais disponível, mais empática e mais consciente dos próprios limites.
E, consequentemente, é uma mãe que educa a partir da presença, não da culpa.

🌷 Se você é mãe e tem percebido sinais de sofrimento no seu filho, lembre-se: o cuidado com ele começa, também, pelo cuidado com você.
Permita-se viver o que prega: a importância de pedir ajuda.
Porque, no fim, o filho precisa de uma mãe real — não de uma mãe perfeita, mas de uma mãe inteira o suficiente para amar e se amar.