Saudade Também é Amor: o luto nas noites de Natal
AOS MEUS PACIENTES
12/23/20252 min read


O luto não tem manual.
Não tem fila, não tem ordem, não obedece ao calendário e muito menos às datas festivas. Quando perdemos alguém muito importante, tudo se embaralha: o tempo, as regras, as expectativas. O que antes era simples passa a doer. O Natal, que socialmente carrega a ideia de alegria, encontro e celebração, pode se transformar num espaço silencioso de ausência.
Costumamos ouvir sobre as “fases do luto” negação, raiva, barganha, tristeza, aceitação, popularizadas a partir dos estudos de Sobre a Morte e o Morrer. Elas ajudam a nomear sentimentos, a organizar minimamente o caos. Mas o luto real, vivido na pele, raramente segue uma sequência lógica. Às vezes aceitamos pela manhã e negamos à noite. Às vezes estamos bem no dia 24 e desabamos no dia 25. E está tudo dentro do possível humano.
O luto verdadeiro atravessa outras camadas:
a saudade que aperta quando a mesa tem uma cadeira vazia,
o silêncio que grita quando falta aquela risada conhecida,
o desconforto de celebrar sem quem sempre esteve ali.
E então vêm as memórias.
Elas não pedem licença.
Uma comida que traz lembrança.
Uma música.
Uma frase que alguém diz: “Nossa, você é igual a ele(a).”
E, especialmente nessa época, o Google Fotos parece cruel, reapresentando natais antigos, imagens de quando tudo ainda estava inteiro. O passado bate à porta com notificações.
Na psicanálise, Melanie Klein nos ajuda a compreender que o luto não é apenas sobre perder alguém fora de nós, mas sobre reorganizar o mundo interno depois dessa perda. A pessoa amada não desaparece: ela passa a viver dentro. Nas escolhas, nos gestos, no jeito de amar, no modo de pensar. Elaborar o luto não é esquecer é transformar a relação com a ausência.
Por isso, o Natal pode doer mais.
Porque ele escancara aquilo que faltou.
Porque ele lembra aquilo que foi vivido.
Porque ele evidencia que a vida seguiu, mesmo sem quem a gente queria que estivesse aqui.
E, ainda assim, a vida precisa continuar.
Continuar não significa desrespeitar a dor.
Não significa “superar” ou “substituir”.
Significa permitir-se viver com a saudade, e não contra ela.
Talvez, neste Natal, o sentido não esteja na euforia, mas na honestidade emocional. Em reconhecer que dói, que falta, que não é igual, e tudo bem não ser. Em compreender que honrar quem partiu também é seguir vivendo, porque quantas vezes essa pessoa celebrou a vida conosco? Quantas vezes ela desejou que fôssemos felizes?
A saudade pode, aos poucos, deixar de ser só ferida e se tornar significado.
Um lugar interno onde essa pessoa continua existindo.
Não na presença física, mas na história que ajudou a construir em nós.
Se este Natal estiver difícil, respeite-se.
Se quiser silenciar, silencie.
Se quiser chorar, chore.
E, se conseguir sorrir em algum momento, não se culpe.
Viver não apaga o amor.
Viver não diminui a ausência.
Viver é, muitas vezes, a forma mais profunda de continuar amando.
