Tornar-se negro é uma travessia psicossocial
AOS MEUS PACIENTES
11/20/20254 min read
Ser uma mulher preta no Brasil é, antes de tudo, um exercício diário de consciência: consciência de si, da história, dos espaços que se ocupa e das estruturas que tentam, silenciosamente, definir quem você deve ser. O Dia da Consciência Negra, para mim, não é uma data de confrontos inflamados, mas um convite à lucidez. É um dia para olhar com honestidade para o que o racismo faz com a Saúde Mental, no corpo, nas relações e principalmente, na nossa sensação de pertencimento no mundo.
Falo desse lugar: o lugar de uma mulher preta, psicóloga, profissional da saúde mental que vem ocupando espaços onde, historicamente, mulheres pretas não foram incentivadas a estar. Minha trajetória não nasce de privilégios, mas também não nasce do estereótipo da violência urbana que insistem em colar na pele negra. Eu vim da pobreza, não da periferia; e isso também é importante dizer, porque a negritude não tem um único roteiro possível. Existe uma pluralidade de experiências negras que raramente é reconhecida.
Com o tempo, entendi que o racismo no Brasil é sofisticado. Ele não grita como em outros países; ele se senta à mesa com você, sorri, faz uma piada, elogia seu currículo com um espanto disfarçado, questiona sua competência com educação. Essa sutileza não diminui o impacto, apenas o torna mais confuso, mais corrosivo, mais difícil de nomear. Por isso eu digo que, aqui, o racismo é tão bem moldado que neutraliza a agressividade que deveria ser evidente e inaceitável. É violência com verniz de convivência.
Durante muito tempo, diante dessas microagressões tão elaboradas, a minha reação foi interna, silenciosa, exausta. Mas a minha prática como psicóloga e a minha vivência como mulher preta me ensinaram a responder de outra forma. Em vez de reagir com raiva, sentimento legítimo, mas que não educa, adotei algo que chamo de constrangimento pedagógico. É a devolução firme, ética e lúcida de uma reflexão. É quando olho para a pessoa e digo, com calma: “Você percebe o que acabou de dizer?” É quando a minha resposta convida ao pensamento, e não ao embate. Porque eu reconheço que a violência que me atravessa não pode definir o meu modo de existir no mundo. E porque, como profissional da saúde mental, eu me comprometo com a transformação, não com a reprodução da mesma ferida.
No consultório, vejo todos os dias como o racismo produz sofrimento psíquico. Não é metáfora: é clínica. A ansiedade que não passa. A hipervigilância. O medo de errar. A dúvida constante sobre a própria competência. A autocensura. O corpo sempre alerta, sempre pronto para se defender de algo que, muitas vezes, ninguém ao redor percebe. E, especialmente entre mulheres pretas, vejo uma face ainda mais complexa: a síndrome da impostora. Não a impostora que nasce da insegurança comum, mas a impostora construída pela história, alimentada pela ausência de referências, reforçada pelo fato de sermos sempre as únicas em muitos espaços. A mulher preta chega, conquista, realiza, mas carrega o medo de não ser suficiente, o receio de ser questionada, a sensação de que precisará se justificar mais do que qualquer pessoa. É uma batalha silenciosa entre o que se é e o que a sociedade diz que você pode ser.
Neusa Santos Souza, psicóloga e autora de Tornar-se Negro, descreve esse processo com uma precisão que me atravessa profundamente. Ela diz que, em uma sociedade que te nega, tornar-se negro é um trabalho diário de reconstrução. É exatamente isso. Não é apenas sobre reconhecer a cor da pele, mas sobre se libertar das lentes da branquitude, das exigências de adequação, do peso do apagamento. Tornar-se negro é reaprender a se olhar de frente, a validar a própria história, a reconhecer a própria potência. É um caminho que vejo nos meus pacientes, mas também um caminho que trilhei.
E, dentro dessa mesma travessia, existe um aspecto que pouco falamos, mas que sinto necessidade de nomear: a solidão emocional e social da mulher preta. Não aquela solidão afetiva, mas a solidão de ser vista como forte demais, resistente demais, capaz demais. A mulher preta é tratada como se fosse inquebrável, e essa expectativa desumaniza. A força é romantizada e, muitas vezes, usada para encobrir a falta de acolhimento. Ser forte não é virtude, muitas vezes, é sobrevivência.
Apesar de tudo isso, seguimos. E quando eu digo seguimos, não falo só da minha história, mas de tantas outras que se encontram na minha trajetória. Eu, mulher preta, psicóloga, profissional, cidadã, que hoje ocupa espaços de liderança, reconheço que cada conquista minha não é só minha: é coletiva. É sobre mim, mas é também sobre as mulheres pretas que vieram antes, que abriram caminhos, e sobre as que virão depois. Cada vez que uma mulher preta ocupa um espaço que historicamente lhe foi negado, ela não está apenas quebrando uma barreira, ela está ampliando o horizonte de todas as outras.
Por isso, eu insisto: representatividade não é detalhe. É cura. Cura porque devolve humanidade. Cura porque rompe silêncios. Cura porque mostra possibilidades. Cura porque transforma a forma como nos vemos e como o mundo nos vê. O Dia da Consciência Negra, então, não é apenas uma data no calendário: é um lembrete de que a luta não é só das pessoas negras, mas de todos que acreditam em dignidade, justiça, igualdade e saúde mental.
Eu sigo, como mulher preta e como psicóloga, firme no meu compromisso de provocar reflexão, de educar pelo constrangimento pedagógico, de acolher as dores e reconstruir identidades, de criar espaços onde antes existiam barreiras. Porque a verdadeira mudança não nasce de discursos inflamados, mas de consciência. E porque igualdade não se pede. Se constrói.
