Volta às aulas: você está ouvindo seu filho ou só perguntando?
AOS MEUS PACIENTES
2/8/20262 min read


O retorno às aulas não é apenas uma mudança de rotina.
Para a criança, ele pode representar separações, perdas simbólicas, novos vínculos, medos ainda sem nome e desafios que o adulto, muitas vezes, subestima.
A psicanálise nos lembra que a criança não adoece apenas pelo que vive, mas sobretudo pelo que vive sozinha.
Freud, ao relatar a fala de uma criança de três anos que pede apenas que alguém fale com ela no escuro, nos ensina algo essencial: não é a solução que acalma é a presença. A palavra, quando endereçada, organiza a angústia. Quando alguém fala, fica mais claro.
No retorno às aulas, muitos pais perguntam:
— Como foi a escola?
— Gostou da professora?
— Fez amigos?
Mas nem sempre estão disponíveis para escutar aquilo que não confirma suas expectativas.
Quando a criança fala de um desconforto, de uma tristeza, de um medo, o adulto frequentemente responde a partir do investimento feito, do cansaço do cotidiano ou da fantasia de que “isso é besteira”, “vai passar” ou “de novo essa queixa”.
A psicanálise nos ensina que escutar não é o mesmo que ouvir.
Ouvir é captar o som.
Escutar é suportar o que o outro diz, mesmo quando isso confronta nossas idealizações.
Nesse sentido, o retorno às aulas é também um momento de castração para os pais: a constatação de que não é possível controlar tudo, proteger de tudo ou garantir que a experiência escolar será exatamente como se imaginou. E tudo bem.
Quando o adulto invalida a fala da criança, ele a deixa sozinha com aquilo que sente. Quando legitima, ele oferece algo fundamental: um lugar de existência psíquica.
A criança não precisa que o adulto resolva tudo.
Ela precisa saber que o que sente pode ser dito.
Em tempos de adaptação escolar, mudanças de escola, início da vida escolar ou enfrentamento de diferenças, escutar a criança é um ato de cuidado, prevenção e amor. Porque, como nos ensina a psicanálise, é na palavra endereçada ao outro que o medo encontra contorno.
E, às vezes, tudo o que a criança precisa é isso:
que alguém fale com ela, para que fique mais claro.
Mas não apenas que alguém fale.
É preciso que alguém escute.
A palavra pode iluminar o escuro, mas é a escuta que permite que a criança permaneça ali, segura, acompanhada e reconhecida. E é nesse encontro, entre falar e ser escutada que o cuidado realmente acontece.
